Por que voar é tão seguro (e como perder o medo de voar)
Os números, as camadas de proteção, o que a aviação aprendeu com os acidentes e como lidar com turbulência e medo de voar.
O trajeto de carro até o aeroporto costuma ser a parte mais arriscada da viagem. A aviação ficou mais segura a cada década, porque cada acidente é investigado a fundo e as lições viram regra para o mundo inteiro.
A segurança aérea costuma ser explicada pelo modelo do queijo suíço, do psicólogo James Reason. Cada camada de proteção tem pequenos furos, e um acidente só acontece quando os furos de todas as camadas se alinham ao mesmo tempo.
Dois pilotos
Um voa e o outro monitora. Os dois treinam em simulador várias vezes por ano.
Listas de verificação
Cada fase do voo tem um checklist lido em voz alta. Nada depende só da memória.
Sistemas redundantes
Dois ou três sistemas hidráulicos, vários geradores e computadores de voo. Se um falha, outro assume.
Manutenção programada
Além da inspeção antes de cada voo, há revisões pesadas em que o avião é praticamente desmontado.
Controle de tráfego aéreo
Controladores mantêm distância mínima entre os aviões, na horizontal e na vertical.
Alertas automáticos
O TCAS avisa sobre outros aviões próximos. O EGPWS avisa se o avião se aproxima do chão ou de montanhas.
Cada tragédia abaixo custou vidas, e cada uma deixou uma lição que hoje protege milhões de passageiros.
Tenerife, Ilhas Canárias
1977Dois Boeing 747 colidiram na pista sob neblina, após um mal-entendido no rádio. Morreram 583 pessoas, o pior acidente da história.
O que mudouFrases de rádio padronizadas. A palavra "takeoff" só é usada quando a decolagem está de fato autorizada.
United 173, Portland (EUA)
1978A tripulação se concentrou num problema no trem de pouso e o combustível acabou antes do pouso.
O que mudouNasceu o CRM: todos na cabine são treinados para falar quando algo parece errado, inclusive o copiloto para o comandante.
Air Canada 797, Cincinnati (EUA)
1983Um incêndio começou no banheiro durante o voo, e a fumaça dificultou a saída após o pouso.
O que mudouDetectores de fumaça nos banheiros e luzes no chão do corredor indicando as saídas.
Delta 191, Dallas (EUA)
1985Uma rajada violenta de vento descendente derrubou o avião na aproximação.
O que mudouRadares meteorológicos nos aeroportos e alertas de tesoura de vento a bordo.
Aloha 243, Havaí (EUA)
1988Parte do teto de um 737 antigo se soltou em pleno voo por fadiga do metal e corrosão. O avião conseguiu pousar.
O que mudouProgramas especiais de inspeção para aviões mais antigos.
Gol 1907, Mato Grosso
2006Um Boeing 737 e um jato executivo se chocaram no ar. O transponder do jato estava desligado sem que os pilotos percebessem. Morreram 154 pessoas.
O que mudouMais atenção ao transponder e ao TCAS, e mudanças no controle de tráfego aéreo brasileiro.
TAM 3054, Congonhas (SP)
2007Um Airbus A320 não conseguiu parar na pista molhada e atingiu um prédio. Morreram 199 pessoas, o pior acidente aéreo do Brasil.
O que mudouRegras mais rígidas para pousos em Congonhas com pista molhada e mais treinamento sobre a posição das manetes no pouso.
Air France 447, Rio–Paris
2009Sensores de velocidade congelaram sobre o Atlântico, o piloto automático se desligou e o avião entrou em estol. Morreram 228 pessoas.
O que mudouTroca dos tubos de Pitot e muito mais treinamento de pilotagem manual e recuperação de estol em grande altitude.
US Airways 1549, Rio Hudson (EUA)
2009Gansos pararam os dois motores logo após a decolagem. O comandante Sullenberger pousou no rio e as 155 pessoas sobreviveram.
O que mostrouTreinamento e calma salvam vidas. O caso virou exemplo de CRM bem feito.
Boeing 737 MAX
2018–19Dois acidentes, na Indonésia e na Etiópia, foram causados por um sistema automático (MCAS) que empurrava o nariz para baixo a partir de um único sensor com defeito.
O que mudouO modelo ficou cerca de 20 meses proibido de voar. O sistema passou a usar dois sensores e a certificação ficou mais rígida.
Turbulência é ar em movimento, como ondas na água ou buracos numa estrada de terra. É desconfortável, mas o avião é projetado para isso.
A asa aguenta muito mais
A estrutura suporta pelo menos 1,5 vez a maior carga esperada em toda a vida do avião. Em testes, as asas chegam a se curvar vários metros para cima sem quebrar.
Parece maior do que é
Uma "queda" que parece de centenas de metros costuma ser de poucos metros. O corpo exagera a sensação.
De onde ela vem
Nuvens de chuva, vento passando por montanhas, correntes de jato em grande altitude e ar quente subindo em dias de sol.
Os pilotos sabem onde está
Eles recebem previsões, veem nuvens no radar e trocam avisos com outros aviões. Muitas vezes mudam de altitude para fugir dela.
O medo de voar, chamado aerofobia, é muito comum. Entender o que está acontecendo e ter técnicas para acalmar o corpo ajuda bastante.
Respiração quadrada
Inspire por 4 segundos, segure 4, solte o ar por 4 e segure 4. Repita algumas vezes. Esse ritmo desacelera o coração e reduz a ansiedade.
Toque no botão e acompanhe o círculo.
Sente sobre a asa
É a parte do avião que menos balança. O corredor ajuda quem se sente preso.
Avise a tripulação
Comissários lidam com isso todos os dias e podem explicar barulhos e dar atenção extra.
Evite café e álcool
Cafeína aumenta a ansiedade e o álcool age mais forte em altitude. Prefira água.
Ocupe a cabeça
Filmes, música ou um livro tiram o foco de cada som e movimento.
Observe os comissários
Se eles estão tranquilos servindo café, está tudo normal.
Procure ajuda especializada
Há cursos para perder o medo de voar, e a terapia cognitivo-comportamental tem ótimos resultados.
A maioria dos sustos vem de barulhos normais. Veja o que você ouve em cada fase, na ordem em que acontece.
| Fase | O que você ouve ou sente | O que é |
|---|---|---|
| No solo | Um ronco parecido com latido, em alguns Airbus | A PTU, bomba que equilibra a pressão entre os sistemas hidráulicos. |
| Decolagem | Motores muito altos e o corpo empurrado contra o assento | Potência de decolagem. O avião precisa chegar a cerca de 280 km/h. |
| Logo após subir | Um "tum" forte embaixo do piso | O trem de pouso sendo recolhido e as portas fechando. |
| 1 a 3 min depois | O motor fica mais baixo e parece que o avião está caindo | A potência é reduzida para a de subida. O avião continua subindo. |
| Subida | Zumbido elétrico vindo das asas | Os flaps sendo recolhidos aos poucos. |
| Em voo | Sinais sonoros "ding" | Comunicação entre pilotos e comissários ou aviso de cinto. Não é alarme. |
| Descida | Vibração e mais ruído de vento | Os spoilers levantados na asa para descer mais rápido. |
| Aproximação | Novo "tum" e mais barulho de vento | O trem de pouso descendo, minutos antes do toque na pista. |
| Pouso | Rugido alto após tocar o chão | O reverso, que direciona o ar dos motores para a frente e ajuda a frear. |
Emergências são raríssimas e a maioria termina sem feridos. Estes passos aumentam muito suas chances, e vários você faz antes mesmo de decolar.
Preste atenção às instruções
Cada modelo é diferente. Leia o cartão de segurança no bolso da poltrona.
Conte as fileiras até a saída
Com fumaça ou escuridão, você pode precisar achar a saída pelo tato.
Use sapatos fechados
Facilitam a descida pelo escorregador e protegem os pés.
Máscara primeiro em você
Coloque a sua antes de ajudar outra pessoa, mesmo uma criança.
Posição de impacto
Quando a tripulação mandar, incline-se para a frente, apoie a cabeça na poltrona da frente e firme os pés no chão.
Deixe a bagagem
Pegar a mala atrasa todos atrás de você. Na evacuação, cada segundo conta.